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Associado de Valor
30/09/2022



A empresa familiar nasceu em 1965 dedicando-se exclusivamente à distribuição de peixe fresco. Com os anos experimento diferentes áreas de trabalho, sempre no ramo alimentar, atualmente tem o fico na distribuição de gelados da conceituada marca Olá.

A empresa Gelfrio, Sociedade Comercialização De Gelados, Lda. tem 57 anos de experiência de mercado, uma longa história de venturas e desventuras, mas capaz de manter duas gerações no negócio.

Maria Conceição Garcia, atualmente com 74 anos, a matriarca da família fundou a empresa com o marido e com a colaboração de apenas dois funcionários.

Começaram por comprar peixe diretamente na lota, no Porto de Matosinhos, transportando-o para Bragança, um transporte dedicado e exclusivo que permitia trazer o produto mais rápido e em melhores condições.

“Na altura o peixe fresco chegava à região de comboio”, explica José Garcia, o filho mais velho dos fundadores da empresa, que dedicou a sua vida a dar continuidade à valentia dos pais. “No comboio o peixe vinha em caixas, mas misturado com outro tipo de cargas”, acrescenta.

A oportunidade de negócio existia e o casal Garcia agarrou-a. Com um camião deslocavam-se ao Porto e traziam a carga completa, vendendo no mercado local, numa loa que possuíam na rua Guerra Junqueiro, em Bragança, e nas aldeias mais próximas.

“Nas aldeias havia vendedores que depois faziam a distribuição, carregavam as caixas no burro e iam vendendo”, explica Maria Conceição.

Em Bragança, a empresa entregava de manhã o peixe nas bancas da “Praça” e ao final do dia tinha de o recolher para o guardar nas câmaras frigorificas, que os comerciantes do Mercado não tinham, na manhã seguinte voltavam a colocá-lo para venda.

Foi depois do 25 de Abril de 1974 que a Gelfrio iniciou com o negócio dos congelados. “Foi uma época em que aumentaram os salários, o poder de compra e faltava tudo”, refere José Garcia.

A produção de carne, por exemplo, não era suficiente para dar resposta á procura e o país viu-se obrigado a importar produtos diversos. “Aí começamos a trabalhar com os congelados, carne, peixe, legumes”, refere.

Mais tarde tentaram também trabalhar, na área dos frescos, com frutas, mas a experiência não se revelou rentável. “Comprávamos, por exemplo, a maçã toda de um pomar, colhíamo-la e armazenávamo-la a uma determinada temperatura, tínhamos de a escolher de, retirar a que se ia deteriorando, tentávamos separa-la por calibre, e isso obrigava a muito manuseamento e depressa vimos que não era um negócio viável”, conta. Um processo bem diferente do que é praticado hoje em dia, em que a fruta praticamente não é manuseada.

Pouco a pouco, também fruto do despovoamento do meio rural, a empresa foi orientando o negócio e atualmente trabalha, sobretudo, com marcas consagradas, sendo os gelados da Olá, o principal produto da empresa.

O despovoamento das aldeias e a abertura de hipermercados abalaram negócio

Foi principalmente o problema do despovoamento rural que obrigou a mudanças fulcrais no negócio. “No tempo em que a empresa começou com a distribuição de peixe as aldeias tinham muita gente e muitos jovens”, refere José Garcia.

Atualmente as aldeias têm pouca gente e, com isso, as mercearias locais também forma encerrando.

Depois vieram os hipermercados, onde o consumidor num só espaço encontra frescos e congelados a preços mais competitivos. Até o setor da restauração abastece muitas vezes nestes grandes centros comerciais.

José Garcia ainda pensou em abrir, por sede de concelho, lojas de congelados, mas não avançou com o projeto alegando que não existe neste território uma pré-disposição de recorrer a estes espaços frios, nem de consumo de refeições pré-feitas. A empresa optou por se focar na distribuição de gelados, inicialmente com a Globo, e tinham cerca de 70 clientes, atualmente com a Olá, somando perto de 1400 clientes, ainda que sejam pontos de venda com um volume de negócios baixo.

Custos de energia criam novas dificuldades

Com mais de meio século de existência a Gelfrio mantém-se sólida, mas José Garcia refere que nunca como agora foi tão difícil aguentar os custos do negócio. Por um lado, o aumento do preço dos combustíveis, que afeta diretamente os custos de distribuição, registando um aumento na ordem dos 40% face a um ano atrás. Mas o mais pesado são os custos da energia elétrica. “Tivemos um aumento de quase 400% na fatura da eletricidade”, refere o empresário.

“Muitas empresas estão a fazer contratos de fornecimento de energia a dez anos, hipotecando o futuro para não morrer agora”, explica. Essa não é por enquanto uma opção para a Gelfrio, apesar das dificuldades, até porque trabalham com produtos de marcas consagradas, com poucas margens para negociar o preço de venda.

Maria Conceição Garcia olha para o cenário que o filho descreve com apreensão, mas não desarma. Aos 74 anos orgulha-se de continuar a angariar clientes, trabalha nas vendas e há dias em que faz 400 Km.

“Ainda ontem fui para as aldeias de Foz Côa”, refere orgulhosa, contando que tem clientes “de toda a vida”, pessoas com quem cultiva uma amizade de décadas que já são quase da família.

Mas o que mais orgulha esta empresária, é ver os seus dois filhos, Victor e José a trabalhar no negócio de família, e a procurar diariamente novas soluções para garantir a sua viabilidade.